Onde bebemos, aonde beberemos?

Onde a galera bebia antes da pandemia? Que shows viam? Como e onde serão as próximas festas, shows e bebedeiras? 

Como já comentei antes, das coisas que aproveitei dessa quarentena, retomar o hábito da leitura foi uma das melhores! E atualmente estou finalizando – com mais dois ou três livros ao mesmo tempo - o ótimo História de um Bom Fim, boemia e transgressão de um bairro maldito, de Lúcio Fernandes Pedroso. 

O livro é bem massa, apesar de alguns momentos mais técnicos e arrastados, dada a formação de historiador do autor, o livro desenrola quase 40 anos de história de um dos bairros mais tradicionais e afudes de Porto, berço de várias cenas artísticas, culturais e políticas de nossa capital! Conta sobre os anos 70 e a famosa Esquina Maldita, fala dos anos 80 do Ocidente, João, Escaler e puxa até os 90 falando das cenas, dos bares, dos shows no Araújo, da galera ocupando a Osvaldo Aranha com suas garrafas de vinho e violões – e depois fugindo pra dentro do João e outros bares pra escapar do atraque da Brigada ou das tretas entre punks vs. skins vs. metaleiros vs. manos vs. playboys...

Coincidentemente, paralelo à leitura do livro, vi rolar um BUM em um antigo grupo do Facebook (sim, ainda uso isso) que chamava “Sobreviventes dos 80” e que tinha uns 100 membros silenciosos há uns 10 anos. Acho que a soma da quarentena e mais o acréscimo de um “/90” no nome do grupo, fizeram ele pular em duas semanas para 6 mil integrantes, virtualmente ativos e saudosos de uma boemia que a cidade há algum tempo não vive! Falando de bares, festas, bandas, personagens lendários da noite, principalmente daquela efervescência cultural que a Osvaldo centralizava nos anos 80 e 90!  

Eu vivi muito do que o livro conta – pois o diabo não é esperto só porquê é diabo, mas sim porquê é velho – da metade dos anos 90 pra frente! Beber em frente ao João e Escaler, uns anos depois as dobradinhas Bambu’s + Garagem Hermética e Bell’s + Dr. Jeckyll. Nos anos 00 o surgimento do Beco 203 e Guanabara na João Pessoa, festas na Fábrica, Eclipse, mais um tanto de bares legais que estavam sempre cheios na CB, lugares pra beber, pra tocar, pra bater cabeça... muitas bandas, flyers nos murais, lambes nas paredes indicando uma quantidade de eventos, em boa parte de produtoras independentes e pequenas ou por organização das próprias bandas...  

Mas aí, me pergunto, ONDE É QUE ESSE POVO ANDAVA? 

Onde é que essa galera bebia agora, antes da quarentena? Nos últimos 5, 10 anos? Que shows viam? Onde estão esses músicos, que reuniam 5 ou 6 bandas pra tocar num bar na mesma noite, todo fim de semana? Onde está esse público que por vezes começava a noite embaixo do Ocidente, no Espaço TEAR e depois subia a pé a Protásio Alves até o Área 51 pra ver mais shows? Ou que se aglomerava em frente ao Bambus, tomando conta de calçada e avenida, como donos da cidade?! Onde anda o povo que chorou o fechamento do João, depois do Garagem, Dr. Jeckyll,  Bell’s e continuam só chorando (na internet) cada vez que um desses espaços se vai... 

Vejo agora, que estamos em quarentena, todo mundo postando “sdds do boteco, né minha filha?”, mas onde vocês estavam antes? ONDE VOCÊS BEBIAM, VIVENTES? Sei que é uma constante essa mudança, como uma migração que a boemia faz pelos bairros a cada década e sempre mesclando uma parte da galera da década passada, que acompanha as mudanças e o público novo, que aprende com os velhos mas traz novas tendências!

Mas não consigo vislumbrar agora, pra onde vai a nossa boemia, a noite roqueira de Porto Alegre e região, após o fim da pandemia. 

Precisamos voltar pra rua, ocupar o espaço público, a cidade, para que a cultura que sempre foi referência em Porto não suma! Estão nos domesticando em casa, com tantos streamings, redes sociais, celulares, câmeras e wi-fi, com tanto medo, falta de segurança pública e incentivo público as ações culturais (e não me vem com meia entrada, porquê “incentivo” com grana dos produtores só é incentivo pra ingressos mais caros, mas isso é assunto pra outro post) e parece que agora, que por um tempo fomos realmente podados da opção de sair (sim, é pra ficar em casa caralho!), sentimos saudades, falta disso tudo que tínhamos a disposição e não aproveitávamos, apenas reclamando “que os rolês não eram mais os mesmos”. 

Proponho que esse momento que ainda se prolongará, de isolamento, de bares vazios, de beber em casa via Skype com os amigos, sirva pra essa reflexão: porquê abandonamos os bares, as ruas, os botecos, as bandas? Como resgatar isso, tomar a cidade pra nós de volta? Onde vamos encher a cara e deixar a bundamolice de lado quando a normalidade voltar?  

Quero saber de vocês gurizada que curte o Cartel da Cevada e que leu até aqui:  qual é o pico afude pra fazer um show depois que essa loucura toda passar? Onde será o novo Bom Fim, a nova CB? Pra onde vamos levar a boemia e a transgressão de Porto Alegre, pra escrever esse capítulo da história? Sobre o que escreverão os autores de 2050 ao falar da nossa década?  

Fiquem bem, que o capeta aqui está “orando” por vocês! (depois eu cobro!)

1 comment

  • Tom Juan
    Tom Juan RS
    Eu bebo aonde tiver bebida

    Eu bebo aonde tiver bebida

Add comment